Ainda lendo "O Retorno e Terno", de Rubem Alves, gostei de um trecho da crônica "Entre o martelo e a bigorna"...
"E me veio então a curiosa ideia de que o Diabo é o encarregado do controle de qualidade do ser humano. Ele não acredita nas aparências. Vai descascando a gente como se fôssemos cebola, casca a casca, até chegar lá no interior escondido, para ver o que é que tem lá. Existirá algo? Ou será só o vazio? Pensei isto porque é precisamente isto que a dor faz: ela tira todas as cascas, destrói todos os supérfluos, até que só sobra, lá no fundo, aquilo além do que então se pode ir. E esta é a hora da verdade.
Por isto que parei de chamá-lo de Tentador - uma palavra carregada de sugestões morais, como se o seu negócio fosse enganar e lançar no inferno. Prefiro antes chamá-lo de Testador, aquele que nos faz passar pelo teste, que nos submete ao controle de qualidade para ver se, dentro da bela viola não existe só pão bolorento.
(...)
Só se sabe a verdade que mora dentro da gente quando a cebola chegou ao fim, e já não temos nenhum artifício de defesa, nenhum buraco onde nos esconder, nenhuma máscara de sorriso, nenhum desodorante que disfarce o mau cheiro, nenhuma barulheira de festa e de ação que nos distraia do encontro com o abismo."
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