terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Uma carta de dor e revolta


Carta de Marcella Martins, Santa Maria – RS, à  Presidente Dilma
Engula o choro, presidente. Engula o choro ao falar da  tragédia de Santa Maria. Engula o choro e todos os problemas desse país que nele  estão escancarados. Engula, que o medo do segurança de ser demitido neste país é  maior do que sua consciência de deixar as pessoas saírem sem pagar suas contas  para não morrerem. Engula a soberba dos donos de empresa desta nação que não  estão nada preocupados com pessoas como eu e até mesmo como a senhora, porque  estão focados demais em lucrar, e preferem fechar as portas como numa câmara de  gás a ter prejuízos. Engula a pressão que todos os seus funcionários sentem  todos os dias. Engula que para arcar com seus altíssimos impostos, todos eles  dão um jeitinho bem brasileiro de se desviar dos regulamentos e leis. Engula que  os órgãos responsáveis por evitar que isso aconteça não funcionam. Engula que  eles deixaram essa, entre tantas e tantas casas mais, funcionar sem licença.  Engula que provavelmente alguém que também ganha pouquíssimo aceitou um suborno  para que isso acontecesse. Engula que a senhora deu “é” sorte por ser apenas  essa casa entre todos os tantos lugares que deveriam estar fechados, que caiu na  boca da mídia. Engula a mídia que vai atacar com todo o sensacionalismo possível  em cima das famílias que estão procurando celulares em cima de corpos para  reconhecer seus filhos. Engula as operadoras que não funcionam e que  provavelmente impediram uma série de vítimas a pedirem socorro. Engula que o  socorro que chega para se enfiar em lugares como este, pegando fogo, cheio de  corpos de jovens para serem resgatados, recebe um salário vergonhoso, com  descontos ainda mais vergonhosos, e ainda assim executam um trabalho triste e  digno antes de voltarem para a casa e agradecerem por seus próprios estarem  dormindo.
Não, presidente. Não chore ao falar da tragédia.  Faça! Faça alguma coisa. E pare de nos dar como exemplos uma série de  catástrofes para tomar medidas idiotas que não valerão de nada alguns meses  depois. Não se emocione. Acione! Acione a todos os órgãos públicos, faça uma  limpa em sua maldita corrupção e devolva à segurança pública, às instituições  sérias, aos professores, aos bombeiros, aos enfermeiros, aos seguranças, aos  jovens, o mínimo de dignidade. Não faça um discurso. Mude o percurso. Mude tudo  porque estamos cansados de ver nossos iguais pegando fogo, morrendo afogados,  morrendo nas filas dos postos de saúde, morrendo no “crack”, morrendo, morrendo,  morrendo, e tendo como última imagem aquela TV aos fundos anunciando o fim de  mais uma bilionária obra de estádio de futebol.
Não, presidente.  Desculpe, mas na minha frente a senhora não pode chorar. Não pode chorar sua  culpa. Não pode chorar sua inércia. Não pode chorar no Chile, mas também não  pode chorar em Santa Maria. Porque isso é muito maior do que só um acidente.  Isso é muito maior do que só sua comoção. Engula o seu choro, presidente. O seu,  o dos jovens que perceberam que não teriam mais o que fazer que não morrer, e em  especial, o de seus amigos e familiares, que em um país como esse, não têm outra  opção que não chorar. Engula o choro, presidente.”

MARCELLA  MARTINS

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