quinta-feira, 26 de março de 2015

Por que o papai foi embora? (Tâmara Freire)

A resposta mais direta e honesta para mães e filhos que estejam se fazendo esta pergunta é: porque ele pode. Os papais podem ir embora e muitos assim o fazem.
Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que pelos menos 5 milhões e meio de crianças brasileiras não têm o nome do pai na certidão. E se estes 5 milhões e meio de pais sequer registraram seus filhos, não é irracional supor que também em nada contribuem para o seu sustento e criação. São pelo menos 5,5 milhões de papais que foram embora.
Não há como garantir, além disso, que os pais que aparecem nas certidões de nascimento não tenham ido. O exercício é simples: basta recorrer à qualquer Defensoria Pública, para verificar a enormidade de ações, movidas em favor de mulheres e crianças pobres, para obter o reconhecimento de paternidade e a pensão alimentícia. E quantas também são movidas por advogados particulares, em favor de mulheres e crianças em outras condições financeiras? E quantos homens são presos por não efetuarem o pagamento? E aqui estamos falando apenas de dinheiro e questões que o mundo jurídico alcança.
Dias atrás, vi um filme chamado Entre Nós, que conta a história de Mariana, uma colombiana mãe de dois filhos, que se muda para os EUA, para acompanhar o marido. Mas, estando lá, este homem um dia simplesmente vai embora. Mariana então é obrigada a recorrer a diversos tipos de subocupação – com os filhos a tiracolo – para sobreviver. A família chega a dormir na rua, e a depender da caridade alheia para se alimentar. Em certo momento, o filho mais velho de Mariana dirige a ela a pergunta do título: “Por que o papai foi embora?” Mariana diz não saber. Algumas cenas depois, o próprio menino responde: “Você precisa de muita coisa, por isso o papai foi embora.”
Cena do filme Entre Nós - Foto: Divulgação
Cena do filme Entre Nós – Foto: Divulgação
A despeito da intenção do garoto de descontar na mãe sua revolta pelo abandono, não tem ele toda razão?
Nós, as mães, precisamos de dinheiro, e de alguém que divida o cuidado de nossos filhos e a tomada de inúmeras decisões. Isso para dizer o mínimo. Uma ‘injusta’ responsabilidade para muitos pais. Precisamos demais e é mais fácil ir embora. Seja literalmente, como o marido de Mariana. Seja por partes, como tantos pais que vivem na mesma casa que a mãe e os filhos, mas não dividem cuidado algum. Ou que vivem em outro lugar, e nunca veem os filhos. Ou que os veem ocasionalmente, mas contribuem com pouco ou nenhum tostão. Ou uma combinação dessas coisas, ou uma versão outra de algum abandono. O fazem com tal desfaçatez, como se não tivessem contribuído, ao menos em 50%, para que aquela criança existisse. Para que o nascimento de uma criança tenha transformado aquela mulher em uma mãe que pede coisas demais.
Se a lógica não está do lado dos pais ausentes, por que diabos eles insistem em achar que podem ir embora?
Porque quem apaga a luz é sempre o último a sair. E quão improvável seria que Mariana também se fosse deixando seus filhos sozinhos para trás?
Quando um pai vai embora, na absoluta maioria das vezes, há uma mãe que fica, para preencher todas as lacunas financeiras, práticas e emocionais que aquele pai deixou. O patriarcado já nos apregoa que somos a principal responsável por aquela criança. Junte isso à humanidade básica que impediria qualquer ser humano decente de abandonar uma criança à própria sorte e temos a realidade de milhões e milhões de mãe, em menor ou maior grau. A minha. A de várias companheiras do FemMaterna. De muitas amigas. Certamente, de muitas de vocês que me leem.
“Mas a mulher aceitou ter um filho em um país machista, devia prever o que poderia acontecer”, alguém pode dizer. Na verdade, em um país machista, mulheres são presas se não aceitarem ter um filho e interromperem a gestação. Em um país machista, mulheres são agredidas e estupradas, se não aceitarem ter um filho e dizerem não ao marido que deseja uma relação sexual. Em um país machista, mulheres são discriminadas se não aceitarem ter um filho e levarem consigo ou mesmo pedirem que o parceiro use camisinha. Em um país machista, mulheres casadas são questionadas, se não aceitarem ter um filho, e combinarem todos os métodos possíveis para evitá-lo. Em um país machista, como em qualquer outro país, métodos contraceptivos, ainda que usados corretamente, falham, e mesmo que a mulher os use porque não aceita ter um filho, ela pode ter. E quando esse filho é gestado e parido, independente das condições em que foi concebido, com a contribuição inequívoca do esperma de um homem; e depois é abandonado por esse homem, é realmente a mãe que fica que você quer culpar?
Há algumas semanas, uma manchete ganhou a home de muitos portais. Em algum país que não me lembro, uma mãe foi embora deixando seu filho com síndrome de down com o pai. É um caso clássico de gente mordendo cachorro: acontece com tamanha raridade, que se tornou notícia. Nos comentários, os xingamentos mais diversos foram direcionados à mulher. O pai foi louvado por sua impressionante iniciativa.
Já você, mulher e mãe que vive igual situação, não espere louros, você não faz mais do que a sua obrigação.

(texto do site http://femmaterna.com.br/por-que-o-papai-foi-embora/)

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